Palavra Pastoral – O MUNDO ESTÁ FICANDO MAIS POBRE

Você já parou para pensar sobre o processo de empobrecimento mundial que estamos vivendo neste tempo de coronavirus?

Não estou me referindo à queda do PIB na maioria dos países, a multidão de desempregados, os que estão fechando as portas de suas empresas, os que pediram concordata, nem os que tiveram uma significativa redução no seu salário ou renda. Tudo isso é terrível, mas existe um outro fenômeno acontecendo que talvez não estamos percebendo.

No final de cada dia gasto uns 10 minutos olhando na internet os números do coronavirus: quantos infectados registrados no mundo, no Brasil, no Ceará e, principalmente, em Fortaleza. Olho o número de óbitos e de recuperados. Acompanho a lista de “famílias enlutadas” do nosso Relógio de Oração e percebo que o número destas famílias continua crescendo. Definitivamente este não é o meu melhor momento do dia.

Muitas vezes me abato ao ver estes números. Penso que cada um deles representa uma vida com uma história singular. Eu me recuso a ver estes números apenas como uma estatística. O mundo está ficando mais pobre com a partida de cada um deles.

Pode ser que alguém pense: “a maioria destes que faleceram são idosos, e já deram a sua colaboração à sociedade, nem todos estavam na ativa, muitos já estavam doentes, eles não faziam mais parte do “setor produtivo” da sociedade…” Eu sei que isso tudo isso é verdade, mas a vida de cada um deles tem uma riqueza intrínseca e única, que não pode ser medida por reais, dólares ou qualquer outra moeda material.

Ademais, dentre os idosos que nos deixaram há aqueles que permaneciam “ativos”. Uns ainda no mercado de trabalho, outros atuando principalmente como voluntários em igrejas e ONGs, muitos servindo seus amigos e vizinhos na dinâmica do dia a dia, ajudando os filhos no cuidado com os netos, às vezes assumindo até mesmo um papel que não lhes caberia…

Se insistirmos em pensar sob o ponto de vista econômico há aqueles ainda ajudavam a “roda da economia girar”, pois administraram com competência seus recursos ao longo da vida, trabalharam com afinco e agora faziam viagens, ajudavam no sustento financeiro das famílias dos filhos e estavam efetivamente inseridos no “mercado consumidor”. Nem todos os recursos que possuíam serão herdados pelos seus descendentes. Sabemos também que os bens materiais conquistados com tanto esforço e que agora deixam para os filhos e netos, podem se dissipar em pouco tempo…

Mas a maior perda que o falecimento deles representa, certamente não tem a ver com bens materiais. Estamos vivendo um período de empobrecimento existencial sem precedentes na história recente da humanidade.

São milhares de idosos que estão partindo e levando consigo um conjunto de memórias pessoais, de lembranças, e de experiências de vida. Nem todas as memórias que eles carregavam consigo, fruto de uma longa existência, podem ser resgatadas. Muitas delas não foram registradas em uma foto, um texto ou vídeo. Eles não tiveram os recursos tecnológicos que hoje dispomos para estes registros. Muitos deles nem aprenderam a utilizá-los nestes últimos anos de suas vidas. Eles levaram estas memórias consigo e é impossível resgatá-las.

O que me assusta e entristece é a quantidade incalculável de memórias que o mundo está perdendo nestas últimas semanas. Alguém pode mensurar o volume de conhecimento de vida e de experiências que tem ido embora juntamente com nossos idosos?

O que enriquece a nossa existência é a convivência com pessoas que amamos e têm algo a nos acrescentar. Com certeza nossos vovôs e vovós se enquadram neste grupo. Quando eles se vão, ficamos todos mais pobres. Por isso, façamos o máximo para protegê-los nestes dias.

Felizmente há aqueles aos quais Deus tem preservado sua permanência conosco. Olhemos para eles com carinho especial. A vida deles enriquece as nossas vidas. Gastemos mais tempo ouvindo suas histórias, mesmo que sejam histórias que já ouvimos. Isso fará muito bem a eles e nos ajudará a preservar o seu legado de fé, coragem e resiliência. Muitos deles têm anos de experiência de caminhada com Deus. Não desperdicemos a oportunidade de convivência com eles, ouvindo-os atentamente e, se possível, registrando o que compartilharem conosco quando abrirem o seu baú de recordações.

Você decide: vai ajudar a enriquecer o nosso mundo cuidando deles ou vai ignorá-los e deixar o nosso mundo mais pobre?

Marcos Vieira Monteiro

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