Palavra Pastoral – aP e dP

Tenho a impressão que nossa história de vida está se dividindo em duas partes: aP e dP, antes da Pandemia (aP) e depois da Pandemia (dP).

Ontem mesmo, respondendo um questionário on line sobre hábitos alimentares, percebi que a maioria das perguntas indicava um destes dois tempos: aP e dP.

Quantas vezes eu mesmo já falei para alguém que busca informações sobre a nossa igreja: “antes da pandemia nós tínhamos esta programação semanal, ou esta oportunidade de trabalho voluntário, mas ainda não retornarmos à nossa rotina anterior.”

Ao longo de 12 ou 18 meses, independentemente da pandemia, muitas coisas podem se alterar em nosso dia a dia. A diferença é que nem sempre nos damos conta disso, exceto quando as transformações são mais radicais: uma mudança de cidade, de estado civil, início ou conclusão de um curso, nascimento de um filho, divórcio, envolvimento ou afastamento de uma igreja…

A pandemia não é a única responsável por mudanças que aconteceram em nossas vidas desde que ela entrou em nossa história. Determinadas mudanças já estavam em curso em nossa sociedade e em nossa vida pessoal e foram apenas aceleradas com a sua chegada.
Na área tecnológica esta realidade é muito evidente.

Além disso, antes da pandemia (aP) já existiam sementes em nosso interior que poderiam florescer a qualquer momento.

Devemos reconhecer que alguns dos nossos planos não foram totalmente cancelados, somente adiados. Antes da pandemia (aP) eles foram elaborados, e agora (dP) eles serão realizados.

Mesmo considerando que mudanças são o que há de mais permanente na sociedade pós-moderna, o fato é que hoje podemos, com mais facilidade, datar as que aconteceram durante este período de fevereiro de 2020 até hoje, ou seja, durante a pandemia.

Neste tempo dP (depois da pandemia) está difícil conseguir marcar um horário com psiquiatras, terapeutas e psicólogos. Porém, quantos dentre nós já estávamos enfermos aP? Somente não tínhamos consciência de nossas debilidades emocionais.

Antes da pandemia (aP) tínhamos uma determinada rotina e hábitos. O que mudou? aP trabalhávamos o dia inteiro fora de casa, mas dP descobrimos as vantagens e desvantagens do home office.

aP não sabíamos o que era sair de casa com o desconforto de usar uma máscara no rosto. dP muitos de nós já nos acostumamos tanto com elas que, mesmo quando não forem mais necessárias, talvez demoraremos a abandoná-las.

aP nem sempre reconhecíamos o valor da liberdade de poder ir e vir para qualquer lugar sem nenhum receio. dP ficou claro o quanto esta liberdade é essencial para nossa saúde física e emocional.

aP nem todos valorizavam tanto um abraço e um beijo. dP certamente experimentaremos prazer dobrado com estas manifestações de afeto.

aP talvez não estivéssemos tão conscientes das dificuldades no relacionamento conjugal ou dos problemas pessoais de cada filho. dP fissuras relacionais na família se tornaram visíveis e deverão ser cuidadas.

aP mantínhamos determinados hábitos alimentares. dP o que preservaremos e o que mudaremos?

aP alguns se exercitavam e outros viviam como sedentários. E agora, dP?

aP como estavam a nossa a aparência e condição física? aP estaremos mais bonitos e saudáveis ou debilitados por muito tempo?

aP corríamos muito de um lado para outro. dP continuaremos no mesmo ritmo ou decidimos alterá-lo?

aP tínhamos um certo horizonte profissional. dP percebemos novas possibilidades ou as nossas limitações nos têm conduzido a uma situação de grandes dificuldades e até mesmo carência?

aP, provavelmente não valorizávamos tanto pessoas que descobrimos serem essenciais para desfrutarmos de uma vida mais confortável, produtiva e saudável: lixeiros, faxineiras, empregadas domésticas, entregadores de delivery, profissionais da área de saúde, líderes religiosos e amigos que se fizeram presentes em nossos momentos de dor.

Tão ou até mais importante do que reconhecer o que aconteceu ao nosso redor é refletirmos sobre o que mudou dentro de nós e que hábitos novos efetivamente incorporamos. O que fazíamos (“de bom ou de ruim”) aP e abandonamos? Quem éramos aP e quem seremos dP? Cristãos mais próximos de Deus, adoradores mais dedicados a Ele, filhos mais gratos, melhores pais, cônjuges, irmãos?

aP qual era o nosso nível de compromisso com a igreja? Quão forte está sendo este vínculo hoje e o quanto será dP?

Essas e muitas outras perguntas devem ser feitas. Há realidades que estamos experimentando agora que não dependem de uma decisão pessoal. Elas nos foram impostas. Porém, a maneira como reagimos às novas realidades revelará se crescemos e amadurecemos.

Vivendo ainda hoje estes dias de pandemia, mesmo com menor intensidade, que tipo de pessoas estamos nos tornando? Qual será o registro de nossa história pessoal aP e dP?

Marcos Vieira Monteiro

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